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terça-feira, 30 de outubro de 2018

VET: educação dual é a espinha dorsal alemã

Treinamento para fabricantes de violinos mantido pelo  Instituto Federal de Formação Profissional (BIBB) em Berlim
Treinamento para fabricantes de violinos mantido pelo Instituto Federal de Formação Profissional (BIBB) em BerlimFoto: Christian Arnold/Geigen-Arnold.de
digitalização de processos já provocou muitas mudanças no mundo. Muitas inovações surgiram e, na mesma proporção, muitos empregos foram perdidos. Na Alemanha, mais de 1,5 milhão de vagas foram eliminadas com a digitalização de processos. Ainda assim, o país segue como a economia mais robusta do bloco europeu. E é a quarta do mundo. Qual o segredo alemão? Por que o país segue tão firme na liderança da economia europeia?
O modelo alemão deveria ser observado atentamente por líderes de vários países dispostos a reverter a dramática situação da crise do emprego. O alicerce para esse desempenho está numa política educacional levada muito a sério, que garante a padronização e qualificação da mão de obra e repercute na qualidade dos produtos, o respeitado “made in Germany”. E essa política tem um instrumento que pode ser considerado a “espinha dorsal” da economia alemã, como define a Cônsul Geral da Alemanha no Recife, Maria Könning. É o Vocational Education and Training (VET) , que combina aprendizado teórico e prático, com remuneração do aluno. Produto de exportação alemão, o VET é também conhecido como sistema de educação dual. Ele envolve a padronização da formação profissional a partir da gestão compartilhada entre o setor privado envolvido e o Estado.

O Estado participa pela Lei do Ensino Profissional e pelo Código do Artesanato. O Instituto Federal de Formação Profissional (BIBB) prepara o currículo para cada profissão em estreita colaboração com especialistas no assunto. O setor privado composto pelas partes do acordo coletivo de trabalho (sindicatos e associações patronais) como também a Câmara de Comércio determina quais são os conhecimentos necessários e aptidões adequadas para que uma empresa sempre esteja competitiva e à altura das tecnologias disponíveis. 
Cônsul Geral da Alemanha no Recife, Maria Könning
Cônsul Geral da Alemanha no Recife, Maria Könning - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco
A vantagens do sistema dual de educação profissional envolvem, dentre outros, uma qualificação de mão-de-obra baseada em regras e procedimentos claros. A uniformização e a harmonização cria uma mão-de-obra dotada de competências para atuar em todo o mercado de trabalho. O modelo do sistema dual garante padrões de qualidade para os setores econômicos em geral e não somente para um ramo específico ou uma determinada empresa. 
Seria o correspondente no Brasil ao ensino profissionalizante, mas com algumas diferenças fundamentais. Após passar pelo ensino escolar geral, o jovem pode optar por ir para uma escola profissionalizante ou para universidade. Se sua opção for a primeira, ele passa a integrar o sistema de educação dual. O VET consiste na dualidade entre a qualificação teórica e a prática, com mais peso para esta última. O objetivo principal do sistema dual é integrar os conhecimentos teóricos com aqueles adquiridos no posto de trabalho, o chamado learning by doing. O que se aprende em sala de aula pode ser testado na prática ao longo da qualificação, que pode durar até três anos, conforme o curso. 

“Esse modelo é uma evolução de práticas centenárias. O nascimento das cidades alemãs tem muito a ver com o trabalho do artesão, que era o responsável por repassar os ofícios a seus discípulos. Isso era levado muito a sério e os mestres eram obrigados a integrar as Cooperações, que definiam os patamares, as competências para cada profissão. O sistema dual é uma clara evolução disso”, explica a Cônsul Geral Maria Könning. Ao assegurar a base de mão de obra qualificada, o sistema dual tem estimulado a economia alemã a seguir seu ritmo de crescimento positivo, ajudando não só a gerar emprego entre os jovens como a combater a evasão escolar. De acordo com a Agência Federal de Emprego da Alemanha, a taxa de desemprego no país, em queda desde a Reunificação, em 1990, foi de 5% em setembro passado. Entre os jovens com menos de 25 anos, ela fica em 4,8%. 

O VET
 treina 500 mil novos aprendizes a cada ano e conta com 420 mil empresas envolvidas no sistema. Elas respondem por mais de dois terços do investimento no programa. Atualmente, 5,2% de todos os trabalhadores são aprendizes, o que corresponde a 1,32 milhão de pessoas. E 90% concluem o treinamento. As empresas alemãs apoiam o sistema porque ele supre demandas do mercado de trabalho a custo reduzido, já que parte dele é compartilhado com o estado. Em geral, as indústrias oferecem treinamento nas áreas em que estão carentes de mão-de-obra. “Quando as vagas são abertas, o aluno se inscreve e, sendo selecionado, vai estudar na escola indicada pela empresa, onde receberá formação adequada à área em questão”, explica Richard Draga, da Câmara de Comercio de Köln(Colônia), órgão responsável por regulamentar o contrato de trabalho. 

O modelo varia de empresa para empresa. Ele pode intercalar dias ou turnos de aula e trabalho. Há também a possibilidade de uma semana de trabalho para outra de aula. Em média o investimento por aluno gira em torno de 18 mil euros ao ano (61% deste total vai para a remuneração do aprendiz), valor que acaba sendo amortizado pelas contribuições produtivas dos aprendizes. A remuneração do aprendiz fica em torno de 900 euros.

 Por meio da intermediação do Escritório Alemão de Cooperação Internacional em Educação e Treinamento Profissional (GOVET), das Câmaras de Comércio e do Ministério das Relações Exteriores, a Alemanha já exportou o VET para países como Itália, Portugal, Grécia, China, Índia, Rússia, EUA, Equador, México, Geórgia e até Brasil. Por aqui, a experiência, sob a chancela da Câmara Brasil-Alemanha, está em curso há 36 anos, em São Paulo, reunindo 28 empresas, entre elas algumas alemãs como a Bosch. 

 É de se perguntar porque esse modelo exitoso não avançou no Brasil. Para a Cônsul Geral Maria Könning, falta ao país uma entidade que integre nacionalmente as partes que devem se envolver no processo. “Em São Paulo deu certo porque há cooperação entre as instituições”, explica. Algo que teria que se replicado nos outros estados. 

*Viajou a convite do governo alemão

Treinamento para fabricantes de violinos mantido pelo  Instituto Federal de Formação Profissional (BIBB) em Berlim
Treinamento para fabricantes de violinos mantido pelo Instituto Federal de Formação Profissional (BIBB) em BerlimFoto: Christian Arnold/Geigen-Arnold.dFonte: FOLHA PE

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