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quarta-feira, 15 de julho de 2020

Mulher trans é espancada por namorado e três garis em Olinda

A visual merchandising Jamilly Brito, 29, foi espancada pelo então namorado, identificado como João Victor Santana, e três garis na madrugada de 7 de julho, no bairro da Sapucaia, em Olinda. A vítima estava na casa de João, de 19 anos, quando houve uma discussão sobre um provável fim do relacionamento. Jamilly, que é uma mulher trans, decidiu sair para comprar cigarros usando a bicicleta do parceiro. Ao retornar, ela teria encontrado o rapaz do lado de fora da residência. "Ele me disse: ‘Você vai morrer. Eu vou chamar os caras para te matar’. Os garis apareceram e, juntos, os quatro começaram a correr atrás de mim".

De acordo com a Polícia Civil, um boletim de ocorrência de ameaça, roubo e lesão corporal foi registrado. A instituição instaurou um inquérito policial e investiga o caso. As agressões ocorreram na Avenida Presidente Kennedy, próximo a um supermercado. Em seguida, Jamilly correu para a Rua Dutra Macêdo, em uma tentativa de fugir dos agressores. 

Em entrevista ao Diario, a vítima afirma que o João Victor Santana nunca havia demonstrado comportamentos agressivos e que a discussão inicial era corriqueira, comum entre o casal. Ela comentou que não entende a motivação dos garis, mas supõe que João tenha dito para o trio que ela havia roubado a sua bicicleta. “No desespero, fiquei sem saber o que fazer”, conta.

"Eles começaram a gritar: ‘Tira a roupa dela’. Rasgaram todas minhas peças de roupa e começaram a me agredir com socos no rosto. Eu estava com uma bolsa, onde guardava meu celular e todos os meus documentos. De uma hora para a outra, fiquei sem nada. Até a minha sandália eles levaram. Achei que fosse o meu fim, o dia da minha morte”, continua.

"Eu consegui despistar três deles, mas um gari ainda continuou me perseguindo. Ele segurou o meu braço e disse: ‘fique aqui’, com um olhar de maldade”, relata Jamilly, sobre uma tentativa de estupro. "Eu o empurrei e sai correndo. Ele desistiu quando percebeu que não me alcançaria".

Completamente nua e sem nenhum pertence, ela foi pedir ajuda em um posto de gasolina. “Tinham alguns frentistas e seguranças, mas eles não fizeram a mínima questão de ligar para a polícia. Eu esperava ser ajudada, que tivessem empatia comigo. Eu me senti um lixo. Foi o pior dia da minha vida”, desabafa.

"Eu fiquei sem roupa, sem dinheiro e sem comunicação até que Deus colocou um anjo no caminho. Um rapaz chegou para abastecer o carro no posto e me viu. Ele tirou a própria roupa do corpo para me dar. Ligou para a polícia e ainda me deu uma quantidade de dinheiro”. Acompanhada pela polícia na viatura, Jamilly voltou até a casa de João Victor Santana, mas não o rapaz não foi encontrado. Pelo horário, os policiais informaram que ela deveria procurar uma delegacia durante o período da manhã.

Jamilly Brito, no entanto, só conseguiu realizar o boletim de ocorrência delegacia de Peixinhos, em Olinda, no dia seguinte (8 de julho). Na primeira tentativa, foi informada que não havia “um profissional que pudesse atender o caso”. “Eu fico pensando sobre o meu futuro. Isso está me consumindo. Eu estou tomando remédios. Me vem aquelas lembranças terríveis. Eles tentaram me destruir. Eu tento esquecer, mas aquela noite sempre volta. Eu preciso de ajuda psicológica”, desabafa.

A jovem é formada em visual merchandising (prática no setor de varejo de otimizar a apresentação de produtos) e trabalha na área há 10 anos, mas ficou desempregada por conta da pandemia. “A coisa que eu mais quero é um emprego. Eu quero voltar a me sentir útil. Se está difícil para quem é cis, imagina para quem é trans. Eu quero justiça e minha dignidade de volta”, finaliza.

A Secretaria Executiva de Segurança Urbana de Olinda informou, em nota, que tomou conhecimento do caso, manteve contato com a Delegacia de Peixinhos e orientou o delegado a procurar o Departamento Jurídico da Locar, empresa responsável pela limpeza urbana na cidade. “A Secretaria ressalta que também pediu o afastamento dos garis, e a Locar desligou os mesmos do quadro de funcionários”, afirma o texto.

A Secretaria Executiva da Mulher e Direitos Humanos da cidade, por sua vez, afirmou que está mantendo contato com Jamilly Brito para prestar a assistência devida. “Ela, inicialmente, receberá suporte psicológico. Um profissional da pasta, inclusive, realizará uma visita ao domicílio de Jamilly para levantar outras informações e prestar o devido apoio”, finaliza a nota.

A Locar Gestão de Resíduos, empresa presente em diversos municípios pernambucanos e demais estados do país, incluindo a operação do serviço de coleta de lixo na cidade de Olinda, esclareu em nota que tomou conhecimento "da agressão em via pública, envolvendo uma mulher transgênero e seu companheiro, com a suposta participação de agentes de limpeza do seu quadro funcional".

"A empresa ressalta que não compactua com o suposto fato narrado e que abomina qualquer tipo de violência, discriminação ou violação de direitos, sendo estes inaceitáveis em sua conduta. A Locar destaca que, desde o primeiro momento, adotou as medidas cabíveis e que está à inteira disposição das autoridades competentes para auxiliar nas investigações necessárias", diz o comunicado da Locar.
Fonte: diário de Pernambuco.