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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O novo e velho home office

 


Por Antonio Magalhães*

O coronavírus não trouxe só a Covid. Impregnou a sociedade global com o medo de uma morte repentina e sem motivação, apenas pelo contágio invisível do micro-organismo chinês. Balançou a economia planetária, agravando todas as dificuldades já existentes. Matou quase um milhão de terráqueos, contaminou mundialmente quase 30 milhões e ainda não contabilizou os efeitos colaterais da doença na raça humana.

Mas também fez consolidar no ambiente do trabalho uma prática antiga que de repente virou moda e símbolo de status: o home office, escritório em casa, teletrabalho, ou seja, lá como você chame.

Livrou parte da humanidade privilegiada dos abusos do trânsito para o trabalho, da companhia diária, às vezes pouco saudável, dos colegas. Deu foco às tarefas requisitadas pela chefia, aumentando as horas diante do computador. E condenou o homem ou mulher à solidão, sem chance de um cafezinho para descontrair no ambiente profissional.

Mas esta prática não é novidade para muita gente. A história está cheia de exemplos de trabalhadores desenvolvendo suas tarefas em casa para outros em sítios diversos. O ferreiro medieval que morava na parte de detrás da sua oficina. O padeiro português residindo acima do seu negócio com a casa impregnada de cheiro de pão e calor.

Para o jornalista, então, o home office é mais do que uma prática. Já é um destino de uma era na qual emagreceram as redações e sumiram os empregos. Nada de novo para mim, desde o início da minha carreira já usava sem saber o home office. Apenas escrevia matérias, depois da apuração de campo, para entregar ao jornal. Meu primeiro editor, Nagib Jorge Neto, bondosamente, com certeza, lia meus textos e publicava num pequeno jornal semanal que tinha Quarentinha como diagramador. Foi o começo.

Na faculdade, conversava com os colegas sobre o dia de glória de um contrato com um grande jornal local – quando ainda existiam. Mas o tempo foi passando, numa segunda fase, mais experiente fui repórter do Jornal da Cidade sempre em home office, sob o comando do mestre do jornalismo Ivan Maurício, adotando conselhos de Vera Ferraz e compartilhando experiências com Marcos Cirano, Paulo Cunha, Ana Farache, Geraldo Sobreira e Jones Melo. Com o diagramador Isaac tive as primeiras noções de edição. Uma escola mais eficiente do que a faculdade.

Depois de uns largos tempos em redação, voltei ao home office em Madri, Espanha, onde passei quase um ano como freelancer do Estadão, Jornal da Tarde e Rádio Eldorado, todos veículos do mesmo grupo. Anos 80, sem Internet, a rotina era datilografar a matéria em papel, sair de casa, tomar o metrô até a Agência de Notícias EFE para enviar o material ao Brasil. E há ainda quem reclame das facilidades atuais.

Neste ano, voltei ao home office jornalístico. Por convite do publisher José Nivaldo Junior e de Magno Martins, deste blog, assumi a editoria geral do jornal digital O PODER, exclusivo para o Zap, com edições diárias de segunda à sexta. A convivência virtual com os colegas da redação, como Ângelo Castelo Branco, Hylda Cavalcanti e o chefe da arte Ivan Rodrigues, revelaram a evolução do home office. Produzimos a publicação à distância cada um na sua casa ou onde estiver, sem a necessidade da presença física.

O condicionamento da quarentena radical, imposta pelo prefeito e governador na pandemia, terminou favorecendo o projeto do jornal por permitir a operação de forma civilizada pelo telefone ou por redes sociais, colhendo informações, conversando com colaboradores, como Carlos André Cavalcanti, Jorge Zaverucha, Sérgio Moura (Brasília), Jacques Ribemboim, Joana Cavalcanti (Porto), Xico Bizerra, Nelson Nunes Farias, Zé da Flauta, com o propósito de agregar o melhor e mais democrático material jornalístico e cultural.

Com a proximidade do fim das restrições da pandemia, menos casos de Covid, vacinação em massa, o jornal O PODER vai entrar numa nova fase, aperfeiçoando a prática do home office, vitoriosa até agora, e mantendo sua equipe diante de smartphones ou notebooks para fazer o que faz melhor: a transmissão de informações e notícias verdadeiras com cara, nome e sobrenome de quem escreve. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco.

Fonte: Blog do Magno Martins.