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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

A revolução tecnológica pode ajudar a superar o populismo?


Por Maurício Rands*

Diante das crescentes divisões culturais e espaciais que todos experimentamos, está em curso um debate sobre o futuro da democracia. Os tecno-pessimistas temem o domínio das plataformas gigantes que manipulam os dados capturados da nossa vida digital. Os sócio-pessimistas vêm o aumento da concentração de renda como ameaça à democracia. Ambos enxergam no populismo uma expressão dessas ameaças. E, ao mesmo tempo, um catalisador. Nesse espaço, tenho comentado algumas obras sobre a erosão da democracia sob o populismo. A maioria num tom pessimista.

Um bom contraponto é o último livro de Steven Pinker (Enlightenment Now, 2018). Outro, a obra dos professores Torben Iversen (Harvard) e David Soskice (LSE). Que, em Democracy and Prosperity (Princeton University Press, 2019), lançam um olhar diferente. Eles identificam uma simbiose entre os países de capitalismo avançado e a democracia. Com farto material empírico e sofisticada metodologia (análise multivariada e regressões), eles revelam os mecanismos de suporte mútuo. Nessas democracias avançadas, formam-se coalizações de setores bem posicionados em virtude de sua qualificação profissional. E que detêm forte influência nos resultados do jogo político. Foi assim quando prevalecia o modelo fordista de industrialização. Havia uma classe operária e uma classe média que exigiam uma política democrática e a criação de instituições que fomentassem o modelo, inclusive com educação e formação profissional.

Mas também depois da superação do modelo fordista, quando sobreveio a sociedade do conhecimento, baseada na revolução da tecnologia da informação. Nela, os que têm acesso à educação superior de qualidade chegam a superar a metade da população jovem. Novos atores que adquirem a qualificação para se integrar aos setores tecnologicamente avançados. Geralmente em polos como os do Vale do Silício nos EUA. Em cidades prósperas e densas, integrantes de corredores tecnológicos. Neles, importa a localização num mesmo espaço geográfico. Facilitam-se as interações pessoais e profissionais. Bem como o acesso às informações sobre oportunidades culturais, de trabalho e de qualificação. Os profissionais e empresas desses “clusters tecnológicos”, bem como os que a eles aspiram, desenvolvem muita força política perante os governos eleitos. E deles exigem instituições econômicas e políticas que ampliem a formação educacional e técnica capaz de retroalimentar seu avanço tecnológico, econômico e político.

Por isso, no modelo desses autores, as políticas governamentais são fortemente influenciadas pelas “novas classes médias” interessadas em estruturas estatais indutoras da educação de qualidade. Esse efeito, no longo prazo, tenderia a contrabalancear o incômodo dos excluídos da nova sociedade do conhecimento. As “velhas classes médias”, os imigrantes e os pobres, retidos nas áreas rurais e em cidades que não se integraram nos polos avançados. Esses perdedores da nova sociedade do conhecimento têm o natural descontentamento capturado pelos populistas hoje em ascenso. Sua exclusão é vista como a raiz do populismo. A consequência é a polarização entre os setores integrados na revolução tecnológica e aqueles deixados para trás. Como os últimos são muitos, explica-se a força do populismo xenófobo e conservador. Mas, na visão de Iversen and Soskice, uma outra dinâmica tende a se impor. As “novas classes médias”, altamente qualificadas, atuam para desenvolver políticas e instituições que ampliam o acesso à educação e à tecnologia. Aumentando o número de beneficiários dessas políticas, cresce o apoio para que os estados-nação as desenvolvam. O desafio para superar o populismo e a polarização passa a ser o de acelerar a inclusão educacional, tecnológica e profissional dos que até agora foram deixados de fora. Para que as pessoas com acesso à educação de qualidade tornem-se maioria. Se os incluídos na sociedade do conhecimento forem maioria, a democracia estará salva.

*Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Fonte: Blog do Magno Martins.